Feeds:
Posts
Comentários

Saudade

quadrado_negrobnegra

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Por MARCELO RUBENS PAIVA

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?
Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.
Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.
Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.
Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?
Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.
Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.
Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.
Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?
Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.
Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia…
Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.
Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.
Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.
Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores – ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.
A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.
Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.
Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.
Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.
Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.
Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.
Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.
Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.
Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."
Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.
Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

*Publicado em "O Estado de S.Paulo" de 30 de janeiro de 2010.

 

terremoto mundoeducacao_com_br

Folha de S. Paulo, São Paulo, domingo, 24 de janeiro de 2010

OPINIÃO
Erros repetidos não podem ser acobertados pelos escombros

Ajuda mal planejada e mal implementada não conseguirá produzir resultados esperados pela generosidade dos estrangeiros e pela boa vontade dos haitianos

MICHÈLE ORIOL
DANIEL SUPPLICE
MICHEL SOUKAR
ERIC BALTHAZAR
JEAN-PHILIPPE BELLEAU

ESPECIAL PARA A FOLHA

NÓS, ACADÊMICOS e intelectuais haitianos, revirando ainda os escombros de nossas casas e vidas destruídas, esperamos ser ouvidos por cima dos clamores de comentaristas e autoridades. Isso é tanto mais importante porque o futuro do Haiti se decide agora. Queremos apresentar aqui uma avaliação franca dos problemas que o Haiti enfrenta e oferecer uma nova maneira de pensar a respeito da reconstrução da capital, Porto Príncipe, e do Estado haitiano.
As perdas humanas e os danos materiais são extremamente pesados, tanto pela dimensão do tremor como pela surpresa com que foi vivido. Mas essa catástrofe foi anunciada. Vários cientistas haviam advertido quanto ao risco iminente de um terremoto na área da capital e propuseram medidas simples e não tão caras para preparar a população. As autoridades ignoraram completamente esses alertas.
Nenhuma criança haitiana foi orientada a buscar proteção sob um móvel ou sob o umbral das portas. O desastre deixou as autoridades completamente sem reação. As iniciativas mais importantes para a prevenção de riscos e resposta a emergências financiadas pela cooperação internacional nos últimos anos não tiveram nenhuma eficácia no longo prazo. Os bilhões de dólares gastos nos últimos 15 anos em infraestrutura geraram resultados pífios.
Para além das reflexões sobre a inevitabilidade dos desastres naturais, devemos tirar conclusões a partir da resposta às catástrofes de 2004 e 2008 no Haiti e dos US$ 600 milhões que custa a cada ano a presença da ONU. De outro modo, a ajuda será novamente engolida por um gigantesco buraco negro de inércia, corrupção e incompetência. Reciclar os mesmos projetos é uma receita para o fracasso. Ajuda mal planejada e mal implementada não produzirá os resultados esperados pela generosidade dos estrangeiros e pela boa vontade dos haitianos.
O que restava do Estado haitiano ruiu junto com a capital. O colapso do palácio presidencial, da Assembleia Nacional e da maioria dos ministérios serve como uma metáfora bem adequada. A destruição do Estado haitiano, iniciada há 50 anos, foi completada.
A população reconheceu a total incapacidade das autoridades para oferecer qualquer tipo de resposta à perturbação no país ou para coordenar os esforços internacionais. Um presidente abalado, desconexo, imóvel se mostrou incapaz de se dirigir a seu povo, a não ser para dizer que também ele estava desabrigado. Na verdade, a única personalidade política a falar publicamente e abordar a situação foi o presidente americano, Barack Obama.
Nenhum de nós chegou a se surpreender com a completa ausência de um Estado há muito morto. Nessas condições, ninguém deveria fingir que instituições nacionais tenham sobrevivido à catástrofe e sejam capazes de operar. Tememos inclusive que autoridades haitianas utilizem o desastre como uma oportunidade para permanecer no poder após o fim de seus mandatos em dezembro, defendendo a unidade nacional, a continuidade e a assim dita "estabilidade política".
Sem dúvida, o primeiro passo é a criação de uma estrutura centralizada, que deveria ser composta por haitianos investidos da mais alta autoridade e seus aliados mais sólidos, os países mais comprometidos e engajados. Mais importante, deveria ser inteiramente integrado e não constituído por duas alas, estrangeiros com seus projetos de um lado e ministros despreparados do outro. Foi-se o tempo em que governos estrangeiros podiam se esconder por trás da ONU ou dizer: "Aqui está o dinheiro, e assim fizemos a nossa parte".
Nos últimos seis anos, os arranjos estabelecidos entre um Estado falido e as desorientadas Nações Unidas e outras organizações multilaterais produziram um fracasso retumbante. Enquanto estas ofereciam os fundos de ajuda, aquelas legitimavam-nas e implementavam-nos, com resultados, na melhor das hipóteses, inexpressivos. À frente dessa nova estrutura de comando e coordenação somente poderiam estar os americanos ou franceses, uma vez que a liderança dos esforços multilaterais por países caribenhos ou latino-americanos nos últimos 15 anos simplesmente não funcionou.
Apenas grandes potências têm a vontade, a visão e os meios para responder no longo prazo pelos compromissos assumidos. O Haiti não tem condições de servir outra vez como tubo de ensaio para ambições de potências regionais, cujo papel nos últimos anos tem sido, na melhor das hipóteses, supérfluo. Erros repetidos não podem ser acobertados pelos escombros. A responsabilidade jamais assumida por resultados jamais alcançados não deve desaparecer numa vala comum.
O público internacional deve saber que, se o presidente haitiano está desacreditado aos olhos de seu povo, o mesmo acontece com a ONU. Se ela pretende desempenhar um papel, qualquer que seja, deve fazê-lo sob as ordens desse comando central. A partir daí, deveríamos enfocar o planejamento fundiário, a infraestrutura e a educação, conformando um modelo de planejamento nacional.
Qualquer coisa aquém disso fará com que daqui a dez anos todos se perguntem outra vez onde foram parar os bilhões investidos. Qualquer coisa além disso e nenhum grau mínimo de confiança mútua poderá ser restabelecido. E, enquanto a confiança se esvai e o povo haitiano se desespera, só nos resta contar com a boa vontade de nossos amigos da República Dominicana, do Brasil, do México e, falhando todos, de Deus.

 


MICHÈLE ORIOL, socióloga, é professora de sociologia da Universidade de Estado do Haiti; DANIEL SUPPLICE, historiador, é professor de história da Universidade de Estado do Haiti; MICHEL SOUKAR é historiador; ERIC BALTHAZAR é sociólogo; JEAN-PHILIPPE BELLEAU, antropólogo, é professor de antropologia da Universidade Harvard. Todos os autores são haitianos.

One up!

1up_kc_112808

 

MAIS UM DIA DE FÉRIAS!

Antes que os rumores se espalhem e a coisa vire uma bola de neve, gostaria aqui de esclarecer, e já de pronto me defender dos boatos que possam surgir sobre o que quis dizer com o meu tweet n° 1022 no twitter:

1. O meu Twitter (http://twitter.com/patrickzanon) é pessoal! Tudo que escrevo ali se refere à mim, e mais nada e ninguém. Neste micro-blog pondero sobre as coisas falando especificamente sobre as minhas, e tão somente as minhas impressões. Não represento neste espaço a instituição A, B ou C. Se assim fosse, estaria falando pela conta delas e não pela minha, não é mesmo?

2. O texto do “polêmico” tweet diz o seguinte “Show em Monnerart = merda foda. #charliebrownlifestyle” se refere ao show em Monnerat, distrito de Duas Barras – RJ realizado na frente da Igreja desta cidade pelo Grupo Santa Cecília de Cantagalo no dia 23/01/2010.

Como mencionei acima, estou nesta frase se referindo a mim. Trato aqui do meu desempenho no show, que sim, foi sofrível. Abrindo um parêntese neste item, confesso a vocês que não me sinto bem tocando em lugares abertos, e quem me conhece em épocas pré e pós os shows sabe que sempre reclamo disso. Portanto, não falei de ninguém envolvido nesta apresentação que não seja eu!

3. Os períodos anteriores e posteriores ao show foram muito bons. As pessoas em Monnerat foram excelentes! Não me faltou, pelo contrário, fomos muito bem tratados!

Porém reitero que o tweet n° 1022 da minha conta do Twitter se refere à minha inaptidão com o instrumento que tanto amo que é – como todo mundo sabe – o contrabaixo. Sinto-me mal quando não faço valer meu posto de contrabaixista, só isso!

4. Essa não foi nem a primeira e nem será a última vez que me criticarei quanto à minha atuação artística no meu Twitter. Aliás, o Twitter como qualquer rede social é um lugar de livre expressão, e creio que falar que fui mal em determinada coisa não é ofensivo para com quem esteja envolvido nela, a não ser eu mesmo.

Pelo contrário, aos membros do Grupo Santa Cecília, acredito que esta minha autocrítica que seja o reconhecimento de que preciso (e preciso muito!) melhorar para ser digno de estar ao lado deles no palco (todos são excelentes no que fazem, sem exceção) e ao povo de Monnerat, muito cordial, como mencionei acima, um pedido de desculpas pela minha atuação pífia.

Perdoe-me aos que acompanham este blog este esclarecimento (desnecessário), mas infelizmente como o Lobão, (quem diria, J) disse em uma entrevista à Record “No país da fofoca, ter opinião [infelizmente] é tabu”.

Não fui bem em Monnerat, perdoe-me pessoal da Corbam, comunidade católica que completou 5 anos ontem e o Grupo Santa Cecília e quem mais se sentiu ofendido, mas o show de 23/01/2010 para o mim – e somente pra mim, por minha atuação medíocre – sim, foi uma merda foda!

Brasília

 quarto_triste

Quartos de hotel são iguais
Dias são iguais
Os aviões são iguais
Meninas iguais
Não há muito o que falar sobre o dia
Não há do que reclamar
Tudo caminha
E as horas passam devagar
Num ônibus de linha
Passos no corredor, alguém se aproxima
E uma voz estranha diz: "Bom Dia"

Posso pedir os jornais
Pedir o jantar
Ligar pra tantos ramais
Ninguém pra falar
Sobre o vermelho que abre este dia
Tudo está no lugar em que não devia
O mundo sai pra trabalhar
Enquanto eu abro a água fira
Um estranho no espelho
Eu quase nem me conhecia
E uma voz estranha diz:
"Bom Dia!"

 

Composição: (Herbert Vianna)

 

Fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_TxxHifWkNUI/Ss1BohZ3knI/AAAAAAAAADY/mI34aRcyTCg/S1600-R/imagem.JPG

ptg003

 

"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos."

(Saint-Exupéry)

 

antígona

Marcello Cerqueira*

Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, matam-se em duelo pelo governo de Tebas. Creonte assume o trono de Tebas e condena Polinices a não ser enterrado, seu corpo serviria de pasto para os cães e as aves de rapina, como exemplo para os que, no futuro, intentassem contra seu governo. Revolta-se Antígona, sua irmã. Quer enterrar o seu morto porque, sem os ritos sagrados, a alma do irmão vagaria pelo mundo sem descanso. Desafia Creonte e enterra o irmão com as próprias mãos. As leis dos homens não podem contrariar as leis divinas. Creonte a manda matar. É assim que Sófocles narra a tragédia de Antígona, representada em 422 ou 421 a.C.

Decreto nº 5.584/05 fixou a data limite de 31 de dezembro de 2005, para abrir os arquivos do regime militar e que se encontravam, como ainda se encontram, guardados em sigilo pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Entretanto, a Lei nº 11.111/05, manteve secretos os documentos que ameaçassem “à soberania, à integridade territorial ou às relações exteriores”, entre os quais aqueles relacionados à guerrilha do Araguaia, entre outros. A redação da lei nos remete aos textos, tanto imprecisos quanto autoritários, das diversas leis de segurança do regime militar. De logo, não se entende como a revelação possa atentar contra a “a soberania” ou a “integridade nacional”. Já no surrado capítulo das “relações exteriores”, realmente a abertura dos arquivos vai desvendar ações criminosas conjuntas dos governos militares do Cone Sul na chamada Operação Condor. Mas não vai surpreender os governos hoje democráticos daqueles países, que já abriram seus arquivos. Inclusive revelando aspectos da “colaboração” do regime militar brasileiro com seus congêneres do Cone Sul. A abertura, aqui, vai preencher lacunas e também servir de alerta de que as relações entre países devem se pautar por valores que respeitem os direitos humanos.

Reportagem do “Fantástico” (13.12.2004) mostrou que documentos dos órgãos de informação do Exército, da Aeronáutica, da Marinha, e de outras instituições ligadas à repressão foram incinerados na Base Aérea de Salvador. O programa exibiu 78 fragmentos de fichas, prontuários e relatórios de posse da autoridade Aeronáutica. Os documentos registram “fatos” que vão de 1964, início da ditadura, até 1994, ocasião em que o país já estava redemocratizado. Foi aberto então um “competente” IPM, que nada apurou. Esses acontecimentos (fantásticos) estão a demonstrar que a sociedade não está apenas impedida por “lei” de ter acesso aos arquivos, como ser válido o temor de que outros, ou muitos, já tenham sido incinerados. Ou venham a ser.

É princípio fundamental da República brasileira o respeito (absoluto) “à dignidade da pessoa humana”. “A dignidade da pessoa humana, um dos fundamentos do Estado de Direito Democrático, ilumina a interpretação da lei ordinária” (STJ, DJU 26.03.01, p. 473). Nesse sentido, a interpretação da legislação infraconstitucional deve tomar por base esse princípio, iluminar-se nele. Assim, qualquer dispositivo da malsinada Lei nº 11.111/05 que atravanque esse caminho deve ser eliminado por via de argüição de inconstitucionalidade ou mesmo por mandado de segurança, pois legitimados estão os parentes dos desaparecidos.

Nesse quadro, parece contraditória a campanha que o governo federal patrocina de colher elementos sobre mortos e desaparecidos da ditadura. Por um lado, lança uma forte campanha televisiva objetivando depoimentos de pessoas que tenham conhecimento sobre as vítimas; por outro, não abre os arquivos em seu poder sobre as mesmas vítimas. Parece contraditório, mas não é. São ainda os limites do Poder Civil. A ele é permitido avançar até determinado limite. O limite é o confronto com o Poder Militar.

Antigo advogado de presos políticos, sei que não movem sentimentos de revanche nas famílias dos mortos e desaparecidos. E nem pretendem comparar as Forças Armadas de hoje com a pequena parte dela que protagonizou os bárbaros crimes do regime a que serviam. Aqui, apura-se uma talvez verdadeira contradição. Ora, como nenhum chefe militar ou mesmo oficial da ativa das Forças Armadas, além da quase totalidade dos reformados, têm contas a ajustar com a justiça sobre os crimes perpetrados à sombra de uma Instituição permanente e fundamental para o país, por que essa aparente “defesa” de crimes que não cometeram? Sei perguntar. Não sei responder.

Sei, entretanto, como a Antígona de Sófocles, que a recusa à abertura pelo governo dos arquivos da ditadura, se antes, na tragédia grega, era um direito divino, hoje é também norma constitucional que deve ser respeitada: a dignidade da pessoa humana, que não desaparece com a vida.

Os familiares de mortos e desaparecidos políticos têm o Direito e o Dever de enterrar os seus mortos.

Marcello Cerqueira é advogado (07 de novembro de 2009)

zerei_assassins_creed

 

ZEREI ASSASSIN’S CREED!

Sobre a História…

the-falling-man

"É muito mais dificil falar de uma coisa do que fazê-la. No âmbito da vida atual, isto é claramente óbvio. Todos podem fazer a história. Só o grande historiador, no entanto, pode escrevê-la."

- Oscar Wilde.

Postagens Antigas »